O Póquer e o Teatro

As semelhanças entre o teatro e o póquer são mais numerosas do que possa pensar-se. O póquer é como uma verdadeira “performance” teatral. O verdadeiro jogador é como um ator, obrigado a encarnar uma personagem ao longo de todo o jogo: a personagem inalterável e sem emoções, independentemente das cartas que lhe couberem em mãos.

É certo que os jogadores de póquer dificilmente conseguiriam enveredar por uma carreira artística no teatro ou no cinema, pois não basta saber esconder as emoções. Mas o contrário também é verdade: podemos perguntar-nos até que ponto um ator conseguiria manter-se impávido e sereno durante um jogo que envolva grandes somas monetárias? Uma partida de póquer não é uma mera representação, uma cena que possa ser repetida se algo correr mal; ali é a sério, e, se se falhar uma vez, a derrota é certa. Nem mesmo treinando numa slots app no telemóvel se consegue reproduzir o mesmo efeito.

Qual é o melhor “ator”: o ator verdadeiro ou o jogador de póquer?images

Comparar o póquer à representação no teatro é comparar duas capacidades de representação diferentes, que não são equiparáveis. Faça-se uma analogia com o “surf”: por um lado, há os surfistas de competição, participantes no Rip Curl Pro, que dominam ondas ditas “normais”, entre a 1 a 3 ou 4 metros de altura (o veterano campeão Kelly Slater e o português Tiago “Saca” Pires estão entre os mais conhecidos talentos da modalidade). Por outro lado, há os surfistas das ondas gigantes, como Garrett McNamara, famoso por “vencer” a onda gigante da Nazaré.

McNamara tem um controlo da prancha, do mar e de si próprio impressionante; contudo, provavelmente não seria capaz de bater Kelly Slater num campeonato. E quanto a Slater, será que já se imaginou nas ondas gigantes da praia nazarena?

Assim é a representação teatral e o póquer: Slater é o “ator” que tem os papéis principais e é considerado mais artístico, mas McNamara é o “jogador de póquer”, a quem se exigem nervos de aço.